
Não sei que relação temos. Não sei sequer quem és tu realmente. É pouco o tempo que já passou desde que nos conhecemos. Não sei se sou quem sou. Não sei se a vida pessoal e social não será um entreve ao que possa existir entre nós.
Eng. Telmo Souza, filho do Dr. José de Souza – advogado – e da Sr.ª D. Nora Miranda de Souza – professora de piano, fala francês e presença constante em festas de croquete. Não sei o que me define mais: o mestrado em Engenharia Química ou a minha filiação.
Tu: Filipe Soares, professor de desenho num liceu perdido nesta grande cidade. Homossexual assumido, colecção de romances (diz-se por aí) infindável.
Vivíamos praticamente juntos. Poucas eram as vezes que ia dormir a casa dos meus pais. A desculpa mantinha-se há dois meses – “Custa-me atravessar a cidade para vir para casa depois das aulas do pós-laboral. Fico em casa do Filipe”. A minha mãe recusava-se a aceitar que não raras vezes dormia fora de casa. Sim, a minha mãe ainda é aquela santa mãe que depois da ida à missa do dia volta para casa e conversa com as amigas sobre as namoradas que me vai arranjando. O meu pai passa tanto tempo no escritório que mal aparece para jantar, mesmo quando eu estou. Está a tratar de um desses casos mediáticos sobre uma mulher que mandou matar o marido, padrasto do miúdo que, diz-se, roubou o pai.
E nós, no meio disto tudo, vamos passando despercebidos, pelo menos dos meus pais. A tua mãe não te deixa em paz um único momento. Sim, és filho único – não me venhas com essa desculpa porque nada justifica que passes mais de uma hora ao telefone com a tua mãe todos os dias. A tua mãe não sai de casa para ir levantar a reforma, não vai ao banco trocar o cheque da pensão do primeiro marido e recusa-se a pedir ao teu pai que o faça e tu… tu vais a correr levantar-lhe o dinheiro para ela puder ir ao cabeleireiro mais caro do bairro e à pasteleria beber o chá das duas da tarde tal é a pressa de ir ver os programas de TV para quem nada mais faz do que falar da vida dos outros. Foi nesses programas que a tua mãe descobriu que afinal consegue enquadrar os vícios do filho no estereótipo do grupo que ela, as amigas e a TV teimam em chamar de “paneleiros”. Não te larga enquanto não te vir com uma rapariga.
Mais uma vez discutimos depois do jantar porque as contas já estão em meu nome e te recusas a pagar metade porque:
– És professor de faculdade, um menino d’oiro, um riquinho e eu estou com as contas apertadas – dizes enquanto me tentas beijar. Deves estar a brincar. Achas que te vou adorar depois de me chamares “riquinho” e “menino d’oiro”? Pego no sobretudo, pego nas chaves do carro, na pasta e nas contas e atravesso a Segunda Circular até Benfica.
Preciso de pensar!
Obrigado Jhonny por me ouvires!
Pegou mais uma vez no telemóvel. Tinha tentado ligar-lhe durante o dia todo. Não atendia. Não atendeu uma única vez. Era ainda cedo para lhe ligar para casa, decerto não teria ainda saído do trabalho mas ele precisava tanto de lhe falar. “Não percebo porque perdes tanto tempo no jornal” – pensava Salvador.
Por volta da hora do jantar chegado a casa e ligou para o telefone fixo. Deixou m
ensagem e o telefone tocou cinco minutos depois:
– Olá minha querida! Estava difícil falar contigo hoje.
– Olá meu querido, desculpa não ter atendido o telemóvel mas estive a trabalhar numa reportagem sobre adopção.
– Oh nem me fales nisso… São uns hipócritas: TODOS.
– Sim Salvador, mas não me ligaste dezoito vezes para falarmos sobre a adopção muito menos sobre o meu trabalho. Passa-se alguma coisa contigo.. convosco?
– É mais ou menos isso… connosco… Agora comigo. O Mauro saiu de casa, disse que era de vez, e que ia voltar para o Algarve. Que este não é o sitio dele. Muito menos ao meu lado. Que sou um egoísta, que só penso em mim, e que… – Silêncio! Desato num pranto infindável de água e cloreto de sódio!
– Amor… Jantar para dois em minha casa hoje. Estou a ver que precisas de conversar.
– Não… vem antes aqui… não me sinto capaz de sair de casa. Passa no Cosmopolitan.pt e traz qualquer coisa para jantarmos.
E passaram a noite agarrados a rever aquilo a que chamavam “os filmes das nossas vidas” agarrados um ao outro e ao cobertor. Salvador não tinha deixado ainda de pensar no amante, no companheiro, no amigo, em todo o que Mauro representava para ele e em todas as coisas que haviam feito juntos, especialmente na casa branca da R. das Oliveiras em Sintra.
A propósito de um artigo da revista VISÃO (nº 731 8 Março 2007) decidi escrever-Te sobre tantas pessoas que não têm coragem de conversar com os pais e amigos(?) sobre como eles são: homo ou bissexuais.
O coming out, ou o chamado sair do armário, é, na vida de um LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e trangéneros), um momento de grande dificuldade, nomeadamente em relação à família. Se contar a um amigo que se é homo ou bissexual é delicado no que toca à reacção dos pais o assunto ainda se torna mais complicado.
O F., bissexual (assumido em relação aos amigos: “sim aqueles que realmente são meus amigos sabem”), a viver uma experiência nova (um amor homossexual), resolveu sondar a família sobre este assunto.
“A meio de uma conversa sobre um qualquer famoso assumidamente homossexual surgiu o tema da bissexualidade, que apressadamente defini como um intermédio entre homo e heterossexualidade. Sim, porque me vejo como algo preso ali no meio: não tenho coragem para me assumir como homossexual, mas também não estou preparado para não imaginar um futuro heterossexual.
Os meus pais evidenciaram, pelo desenrolar da conversa, que não aprovavam tais comportamentos – tanto homossexuais como bissexuais –, ao que eu na minha calma, até porque não lhes queriam mostrar que me importava muito com o assunto, que, se calhar, se fosse comigo que reagiriam de modo diferente. SURPRESA. Os meus pais, adoptaram uma figura séria e disseram que me punham fora de casa.
Ainda não consegui digerir esta conversa.”
O que me preocupa no meio disto tudo é a passividade, o "deixa andar" e a hipocrisia de políticos e lideres dos mais diversos grupos, que com receios de serem apelidados de "gay-friendly" (o que só lhes ficaria bem) ou com medo de serem acusados de gays, não mudam a situação do país...
Já agora vale a pena pensar nisto… Até porque temos um pensamento muito pouco rosa choque! Preto?
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